Sérgio Freitas

 

 

Os sons ecoam no labirinto dos meus sonhos /
as palavras transformam-me em peregrino da saudade./
Descubro a força da alma /
em poemas musicados que me fazem sentir vivo /
águas correntes, de um ser que se renova /
pássaros sonhadores, que navegam pelo mundo /
à procura do caminho, da esperança /
e do encanto de cada alvorada


É difícil explicar por palavras a minha ligação à música dos Madredeus, o meu relacionamento com o universo de sonho, emoção e fascínio evocado por esta música que cedo aprendi a amar, a pensar, a guardar em mim. Emoção é talvez uma das melhores palavras para dizer o que sinto ao respirar esta música, ao absorver cada nota, cada palavra, cada instante de plena fascinação. Quem sente a música dos Madredeus sabe muito bem do que falo e não pode achar estranhas estas minhas palavras comovidas. A música dos Madredeus apela à emoção, ao mais íntimo do meu ser. É como se uma ave tivesse vindo visitar o meu coração e nele tivesse ficado para sempre, uma ave enviada por Deus para dar voz ao meu sentir. Uma ave que canta, sussurrando-me a vida e que trouxe consigo pequenas sementes prontas a germinar. Lentamente, essas sementes foram crescendo até florirem, nasceu então dentro de mim um imenso jardim, o Jardim das Emoções. Ao percorrer o meu próprio jardim torno-me diferente, mais sensível, mais generoso, mais humano. Percorro este meu jardim a toda a hora, preciso de sentir o coração a cada instante e perder-me no labirinto das emoções. Preciso de percorrer cada recanto deste meu éden, ver nascer e morrer cada flor, ver brotar e murchar cada sentimento. Sim, este jardim é onde planto todos os meus sentimentos, onde colho as alegrias e as tristezas e todas as emoções. A minha vida mudou a partir do momento em que ouvi o primeiro acorde, em que escutei as palavras e os sons dos Madredeus. Renasci. É bom poder renascer e voltar outra vez aquela inocência pura e genuína que nos caracteriza quando somos crianças. É bem verdade que nasci na manhã do dia 8 de Abril de 1977, na cidade do Porto, numa manhã fria e chuvosa, mas também é verdade que renasci uns anos mais tarde ao escutar e sentir a música dos Madredeus. Despertei para uma nova vida, uma vida renovada, ao aperceber-me do que realmente é importante: o amor e a partilha, pensar e sentir. Compreendi e interiorizei a mensagem desta música que facilmente se impôs dentro de mim. Não sei o ano, nem o dia em que isso aconteceu, sei apenas que foi instantânea a minha fascinação por esta música. Lembro-me apenas de ter sonhado ao ouvir pela primeira vez um tema dos Madredeus. Estava na praia e "O Pastor", tocava numa estação de rádio. Olhei o mar "Ainda" com mais atenção, concentrei-me na melodia que ouvia e percebi melhor a minha alma, o meu ser. O meu coração bateu mais forte, tão forte como quando me apaixonei pela primeira vez e me rendi aos olhos de uma mulher, aos encantos da paixão. Paralisei ao ouvir "O Pastor", de tal forma que não consegui perceber quem eram os seus autores. Interroguei-me acerca de quem seria capaz de produzir tal som, tão bela melodia, algo nunca escutado na música portuguesa. Uns dias depois, coincidência ou não, a minha mãe ofereceu-me um disco estranho, cor de fogo, que me incendiou de emoção. "Existir" era o seu nome. A partir daí a música dos Madredeus passou a existir em mim, passou a alimentar todo o meu corpo e toda a minha alma. Gravei-a no meu coração. Aprendi a imaginá-la e a percorrê-la mesmo sem a escutar. Do álbum "Existir" até "Os Dias da Madredeus", foi um pequeno passo, uma questão de dias. Foi o tempo necessário à descoberta, de que o grupo com a melhor música que eu alguma vez havia escutado, editara já um primeiro álbum e que "Existir" era afinal o seu segundo trabalho. Os Madredeus conseguiam as suas primeiras conquistas, iam cativando cada vez mais pessoas, iam dando cada vez mais concertos e ao fundo do túnel começava a aparecer a luz da internacionalização. Passei a viver com entusiasmo essas conquistas, como se a mim também me pertencessem. De facto, quem ama verdadeiramente a música dos Madredeus, parece pertencer-lhe. É como se os elementos do grupo e todos os seus seguidores pertencessem a um grande clã, a uma grande família unida pela música. O surgimento de cada novo álbum dos Madredeus é motivo de grande satisfação para mim e estou certo de que também o é para as muitas pessoas por esse mundo fora que se deixaram encantar por esta música. "Lisboa", "O Espírito da Paz", "Ainda", "O Paraíso" e finalmente "O Porto" ajudaram a consolidar o ambicioso projecto iniciado com "Os Dias da Madredeus" e "Existir". A música dos Madredeus é tão humana que soube evoluir e amadurecer, tal como um ser humano consciente o faz, ao longo da sua vida. É com emoção que falo deste amadurecimento próprio do ser humano, dos caminhos que escolhi, dos que recusei e dos muitos que espero vir a escolher ao longo da minha existência, uma existência ainda curta, mas intensa, sentida e emocionada. Através da música dos Madredeus alcancei muitas, muitas coisas bonitas: aos Madredeus devo grande parte da minha inspiração, graças aos Madredeus fiz amigos puros e verdadeiros como Corvinus, Robertson Frizero Barros e Esther Gomes, aos Madredeus tenho ainda de agradecer, os muitos caminhos que decidi seguir e explorar ao longo destes últimos anos, bem como, uma nova forma de pensar, sentir e agir que foi germinando dentro de mim, alargando e embelezando o meu jardim interior, o Jardim das Emoções. É um retracto emocionado e apaixonado este que faço de mim e dos Madredeus, imparcial e tendencioso, dirão algumas pessoas menos familiarizadas com esta música. Peço desculpa aos que não o compreenderem, mas é o único que neste momento sou capaz de fazer e sentir, o único capaz de espelhar nos meus olhos. ...o verde do mar e no meu coração a beleza do amor e da saudade, o único capaz de me fazer viver e sentir vivo.
Sérgio Freitas

A Figura


O nome que aparece
a figura que renasce
o sonho que resplandece
a sombra do abandono
o mar.
O ondular das estrelas
que recobrem o céu
que anunciam um fim sem fim
um recomeço sem começo.
Um abrir e fechar de olhos
um segundo de desconcerto
um instante de solidão
anos de sofrimento.
Um desatino
embate no céu
onde plana um pássaro de fogo.
O fogo espreita-te
a chama chama-te pelo nome
e num clarão de luz
ouves uma voz
que chora
que grita
presa ao calor do teu silêncio.
Revolves as folhas queimadas
e vês a imagem perdida
não a que procuravas
mas a de que fugias
com medo do que ela pudesse fazer
se te alcançasse
se te descobrisse
se te visse fugir
com medo de sentires que ela está viva.
Viva em sonhos
memórias camufladas
e lembranças fugitivas.
Viva em ti
em pensamentos que voam
Indo e vindo
como se passassem
por corredores de esquecimentos
por vazios de alma
por insónias de sentimentos.
Labirintos escarpados
conduzem-te ao abrigo
um caminho tortuoso
sobre lembranças de pó.
Corres no abismo do engano
um buraco preparado para ti
um cais à medida do teu sentir
um alçapão que te prende e te agarra
sufocando-te.
Quando deres por ti
já não és tu
serás um vácuo cheio de chumbo
um pedaço de nada à deriva
um viver desperdiçado
perdido na recusa
na tentativa de esquecer
a figura que te fez sentir
o sonho que te fez sonhar
a estrela que te fez viver.
A sombra alcançou-te
a tarde apagou-se
e agora já não há dia
só uma noite escura
plena de solidão
de gritos que ecoam baixinho
de gestos imperfeitos.
A figura apagou-se
adormeceu para sempre
e presa a uma pedra
jamais poderá fugir.

Novo Dia

O relógio de parede parou
como se me quisesse dizer
que a noite chegou
que o calor partiu
que os sons do silêncio voltaram.
O lume apagou-se de repente
deixando acesa a saudade e a lembrança.
Percorro a casa vazia
exposta ao vento
ao tempo que custa a passar
lendo um livro sem sentido
sentindo a presença da loucura.
Será possível acordar?
Poderá o mar correr para o rio?
Não sei o que digo
nem porque o digo
apenas sei que escrevo
um livro sem palavras
feito de ideias esquecidas
apagadas pela névoa da manhã.
Haverá "Ainda" manhãs?
ou já só restam estas noites frias e escuras?
À janela das ideias
debruço-me sobre sonhos e silêncios
ainda não alcancei o que procuro
ainda está escuro
e tarda a clarear
e se a luz não vier?
Continuo à espera, sem pressa.
Da janela aberta
sinto o vento que sopra do mar
ainda existirá mar?
E saudade? E ondas de solidão?
E pedaços de sal?
Ainda existirão lágrimas?
Ou secaram com o tempo que demorou a passar?
Das perguntas que aparecem
saem respostas confusas
pintadas pelo medo
retocadas pela esperança
salpicadas pela incerteza.
Acordo de manhã
com a noite a esmorecer
com o medo a recuar.
Ainda chove lá fora?
A luz diz-me que não.
Olho para a parede
onde um relógio me diz
que são horas de acordar
tudo pode começar outra vez.
Nunca é tarde para começar
mesmo que a noite volte
mesmo que um relógio pare
e anuncie o fim.
Para quê desistir se à noite sucede o dia?
Se pelo escuro se caminha para a luz?
O caminho a seguir está mesmo à nossa frente
basta olhar para o céu
pensar que alguém existe
e esperar pela luz.


Sérgio Freitas

Sérgio Freitas

dal sito Madredeus - O Porto - http://go.to/madredeus