O Paraíso

 

Querido O Paraiso,

É difícil descrever-te, querido interlocutor de tantas noites, manhãs, de tantos momentos que ficarão para sempre ligados à tua musica, à tua atmosfera, à tua essência. Não tinha a mínima noção de como juntar as ideias que tinha sobre ti num documento que merecesse uma transcrição para o papel. Da mesma maneira, mas de modo diferentemente do que me aconteceu para Ainda, as minhas notas são soltas, as minhas reflexões são confusas, sem nexo, causadas pelo momento, pelo estado de espírito e não por uma analise serena e racional. Mas agora sou forçado a pôr ordem no caos da tua respiração.

Ouvi-te pela primeira vez com entusiasmo e sem preconceitos. Gostei de ti de uma forma devastadora desde o principio, com aquela primeira canção que e tão profundamente Madredeus e que me arrancou lágrimas à primeira escuta. O som era diferente, tinha consciência disso, mas não me importei muito.
Cantaste de forma diferente, a atmosfera que criaste com as tuas esculturas musicais no meu quarto tinha um gosto estranho que ainda não racionalizei completamente.
Em diferentes alturas, a minha imagem de ti sofreu mudanças e distorções causadas por julgamentos precipitados ou por paixões colaterais com outros colegas teus, como O Espirito da Paz. Agora que O Porto nasceu do Tempo e da Arte, a tua essência é-me muito mais compreensível

Tu vens de um período turbulento. Os Madredeus, entre 1996 e 1997, sofreram uma profunda transformação, já tinham começado com a entrada de José Peixoto, o que alterou, e muito, na opinião, o equilíbrio musical dentro do grupo (foi sem dúvida uma evolução incrível...).
Este processo de separação de algo que parecia inseparável e sólido na sua transcendência, uma construção humana sem qualquer defeito e capaz de reproduzir a perfeição de uma contradição musical, ocorreu em silêncio. A criatura antiga mudou de pele, mantendo a sua alma intacta, mantendo as suas ambições, os seus sonhos e a sua determinação. Em poucos meses, todos os fãs temiam o pior : a torre de Pisa, maravilha de uma contradição arquitetónica, parecia ruir pela base. Mas o Sonho susteve-a e continua a sustê-la, porque o Sonho é alma do Paraíso, O Paraíso.

Por esta razão, após dois anos de temor, uma nova e fantástica criatura, uma nova caravela começava a sua viagem de Lisboa para O Paraíso. Um nome impossível, outra contradição, para aquilo que deveria ter sido um Inferno : o inferno da transformação, da morte e da ressurreição.

Sim, querido Paraíso, tu és indescritível. Podia descrever uma miriade de diferentes sentimentos que me evocaste, reflectindo no meu coração a melhor parte de mim que não consigo ver nem compreender. Mas acho que seria melhor analisar-te com o instinto de um cirurgião de forma a entender a base biológica do meu síndroma, antes de me retirar na contemplação do seu significado metafísico.

Até para ti, tal como era para Ainda, é impossível encontrar um percurso de iniciação. Tu não és uma estrada, tu és uma enorme praça que olha para o mar, para o céu, para a cidade e para as pessoas que andam nela. Tal como numa praça, há muitos palácios que são espectadores das historias humanas que decorrem à sua frente. Mas, se Ainda era o palácio, tu, O Paraíso, estás nas historias dessas pessoas, na sua alma, nas contorções que lhes são causadas pelos seus próprios sentimentos.
És uma colecção de situações humanas, como uma Recherche du Temps Perdu lembrando Joseph Louis Proust , onde as paisagens são feitas de sentimentos, palavras e de olhares, não de manifestações naturais. Consigo ler em ti todos os sentimentos contrastantes que podemos viver num dia e, ao ouvir-te, ler a minha vida, o meu interior, o meu lado escondido, aquele lado que nos descobres sem sentir vergonha de ter sensações.

E o sentimento que melhor é descrito é o do amor, naturalmente ligado à saudade. Em O Espírito da Paz, este sentimento foi explorado na sua reflexão mais íntima, nas suas consequências dentro de nós, como se o amor, apesar de tudo, fosse um sentimento dirigido a nós, mais que aos outros. Agora o amor, o sentimento, torna-se concreto. O seu verdadeiro desenvolvimento, as suas idiossincrasias, o seu florescer e o seu fim são examinados, mas o resultado é uma visão de amor triste e cheio de saudade nostálgica. Esta tristeza parece derivar da inevitável dicotomia entre a ilusão de um amor platónico e a realidade de um amor feito de compromisso, de esperanças vãs e renúncias.

Falas muitas vezes de um amor perfeito, como algo que está perdido, e que é perfeito porque foi perdido, porque está distante e é impossível.
Esta é a causa do vôo em direcção ao Sonho, cofre de segredos pacífico e seguro, onde conseguimos aliviar as dores de uma realidade que é maléfica como uma Natureza de Leopardi. Daí, o uso frequente de imagens oníricas e hipnóticas que podemos encontrar nas tuas canções.
O Sonho mantém-se uma alcova secreta e íntima; publicamente, o amor desapontado pode ser transformado nessas reflexões abstractas do sofrimento da humanidade que encontramos em O Fim Da Estrada ou em Canção aos Novos que acho que deveriam ser vistas como fugas de um pensamento que quer ficar distante do presente.
Um elemento característico teu é aquela atmosfera particular que consegues criar, cujo brilho é tão especial que é difícil descreve-lo como se de uma palette de expressões e sentimentos se tratasse.
Acho no entanto, que uma das cores dominantes nessa palette é a ansiedade. Em muitas das tuas 14 canções ela aparece de várias formas. A atmosfera pode também ser serena, mas mantém-se sempre tensa, intensa, como um grito contido. Por vezes, esse sentimento mostra-se nos arranjos, hipnóticos e quase obsessivos, enquanto que noutros o acompanhamento parece perseguir ansiosamente a voz. Estou a pensar em Agora - Canção aos Novos, onde a guitarra parece perseguir a voz de Teresa Salgueiro que se revela muito aguda para ser atingida por ela. Mas o som dessa guitarra, em tons muito graves, transmite uma estranha inquietação; essa inquietação é uma das características da tua atmosfera única, O Paraíso.

Ao ouvir-te, tenho a sensação oposta à que tenho quando ouço O Espírito da Paz.
Neste último, ainda que as letras contivessem fontes de desassossego, a textura musical permanecia serena e davam às canções a cor única da contradição. Quando oiço as tuas canções, a contradição permanece mas é oposta; apesar da serenidade e luz das letras, a textura musical permanece revestindo as letras com um manto sombrio de ansiedade.
Talvez este sentimento, que é tão especial no trabalho dos Madredeus, mas inegavelmente ligado à saudade, derive também da solidão da voz de Teresa Salgueiro nestas novas canções. Não existe qualquer instrumento próximo dela, nenhuma companhia, e a rapariga de O Espírito da Paz, que entretanto se tornou mulher, avança, presa seus sentimentos. Penso que esta imagem de uma voz solitária num cenário musical e emocional tão forte e intenso nos provoca uma espécie de tensão que acaba por se transformar em ansiedade.

Do meu ponto de vista, tu, querido O Paraíso, deste-me força para ver mais e de forma diferente o meu íntimo. Tantas memórias vestem a tua música... E recordo-as quando te oiço: mulheres que amei, dias difíceis, dias fáceis, momentos e instantes que são parte de ti. Na tua música vejo uma parte de mim que talvez tenha desaparecido, naufragado no mar da evolução interior: a evolução a que ajudaste e continuarás a manter.

Corvinus

from the site Madredeus - O Porto - http://go.to/madredeus